Saberes e Práticas das Parteiras Tradicionais de Pernambuco
Instituto Nômades

Trindade

Percorrendo sertões adentro, nas estradas quase sem fim, é lá no Sertão do Araripe, região a oeste do estado de Pernambuco, que se localizada o município de Trindade, 665 km distante de Recife. É na região do pólo gesseiro que se encontra a Associação das Parteiras Tradicionais de Trindade, cujo processo de organização se iniciou no ano de 1994. Das 25 parteiras entrevistadas, 02 delas são parteiras hospitalares, e as outras 23 restantes, parteiras da tradição. Apesar de não ser mais atuante como no passado, a Associação das Parteiras Tradicionais de Trindade mantém reuniões mensais, que vêm acontecendo nas dependências da Unidade Mista de Saúde do município. É a única associação de parteiras do estado em que as associadas chegaram a ser gratificadas pelos partos atendidos, através de um acordo estabelecido entre a Associação e a Prefeitura durante o primeiro mandato do prefeito Gerôncio Figueiredo (1993 a 1997).


Projeto Saberes e Práticas das Parteiras em Trindade

Percorrendo sertões adentro nas estradas quase sem fim, é lá, no sertão do Araripe, que se localizada o município de Trindade, 665 km distante de Recife. É na região do pólo gesseiro que se encontra a Associação das Parteiras Tradicionais de Trindade, cujo processo de organização se iniciou no ano de 1994.

Joaquim Araújo de Sá, o Juca, então Secretário de Saúde de Trindade, convocou as parteiras do município com o intuito de realizar o cadastramento das mesmas – “as parteiras já existiam, só que elas não se conheciam. Trabalhavam escondidas, isoladas e com medo. Ele pôs um aviso na rádio: quem fosse parteira tradicional comparecesse a Unidade Mista de Saúde de Trindade pra fazer o cadastramento. As parteiras foram aparecendo e dizendo: ‘eu sou parteira’. Depois houve um encontro de parteira no Caatinga [ONG], em Ouricuri, e a gente foi convidada. Já tinha 49 parteiras: 48 parteira mulher e 1 parteiro homem. Era o filho de Raimunda. No último dia, foi feita uma reunião pra que as parteiras já saísse com seus representantes: presidente, tesoureiro, primeiro secretário, segundo, e a gente já saiu com os seus coordenadores. Foi lá que a gente se conheceu” (D. Toinha Torres, 22/08/2008).

Nesse encontro, viabilizado pela Secretaria de Saúde do Governo do Estado e realizado em Ouricuri-PE, nas dependências da ONG Caatinga, as parteiras da região se conheceram, dentre elas, as que residiam no município de Trindade. A partir de então foi germinada a primeira semente de organização das parteiras – “aí veio Grupo Curumim dar um treinamento pra gente, aí apareceu mais parteiras. Só que esses representantes que foi tirando, escolhido, lá no Caatinga, elas num deram a continuidade. Ficou um, dois anos, essa associação parada, aguardando outros representantes. Quando o Curumim voltou procurou novos representantes. Aí fui eu presidente das parteiras; Francisca, a secretária; Alice, tesoureira. Aí a gente deu continuidade” (D. Toinha Torres, 22/08/2008).

Apesar de não ser mais atuante como no passado, a Associação das Parteiras Tradicionais de Trindade mantém reuniões mensais, que vêm acontecendo nas dependências da Unidade Mista de Saúde do município. É a única associação de parteiras do estado em que as associadas chegaram a ser remuneradas pelos partos atendidos, através de um acordo estabelecido entre a Associação e a Prefeitura, no primeiro mandato do prefeito Gerôncio Figueiredo (1993-1997). No seu segundo mandato (2005- 2008), o atual Prefeito Gerôncio Figueiredo, reeleito no pleito eleitoral de 2008, suspendeu a política de gratificação das parteiras. Porém, com a chegada do inventário à localidade, o prefeito retomou a idéia de voltar a gratificar as parteiras associadas pelos partos assistidos em domicílio ou mesmo nos casos da parturiente ser encaminhada pela parteira até a Unidade Mista de Saúde da localidade. Pleiteando a reeleição, tudo indica que a idéia não se concretizou na prática, ficando, apenas, no plano do discurso.

Na pesquisa para esse inventário, as representantes da Associação demonstraram capacidade de organização e mobilização, embora tenha ficado evidenciado que o cadastro das parteiras associadas se encontrava desatualizado. Para viabilizar sua atualização, foi feito um trabalho conjunto entre a coordenadora dessa localidade, a presidente da associação e a pesquisadora local. Trabalhamos com o cruzamento de três cadastros: o da própria associação e os outros dois que foram disponibilizados pelo Grupo Curumim e pela Secretaria de Saúde de Pernambuco. Após o cruzamento das informações, identificamos que algumas parteiras haviam falecido e várias outras mudaram de município. Chegamos ao quantitativo inicial de 35 parteiras, entretanto continuamos a nos deparar com dados incorretos e informações insuficientes que não permitiu viabilizar a localização de todas essas parteiras. Em alguns casos, embora seus nomes estivessem constando no cadastro, algumas mulheres não se consideram parteiras e outras não foram referenciadas na prática do ofício pelos moradores da comunidade.

Diante desse contexto, conseguimos localizar um total de 27 parteiras no município de Trindade, mas 02 delas não irão constar no quantitativo geral de parteiras dessa localidade, por motivos éticos e por limitações relacionadas à condições de saúde. No caso de uma delas, parteira bastante idosa, a família não autorizou a assinatura da carta de anuência. Quanto a Vó Amélia, parteira um tanto referenciada no Povoado da Bonita, zona rural de Trindade, há alguns anos ela foi acometida de um acidente vascular cerebral (AVC) e uma das seqüelas foi a perda da fala, por isso não foi possível entrevistá-la. Recorremos a seus familiares e usuárias, mas, infelizmente, eles não souberam descrever suas práticas no ofício do partejar. As informações foram insuficientes para, no mínimo, preencher o formulário do anexo 3. Portanto, de acordo com os critérios desse inventário, das 25 parteiras entrevistadas, 02 delas são parteiras hospitalares, e as outras 23 restantes, parteiras da tradição.

A grande maioria das parteiras da tradição reside nos sítios e povoados, zona rural da localidade. Alguns desses lugares são distantes e de difícil acesso que, em época de chuva, as estradas de barro ficam quase sem condições de serem utilizadas. Era nesses lugares que as parteiras exerciam a prática do ofício com maior freqüência em épocas atrás. Atualmente, já não pegam tantos meninos. Algumas delas pegaram o último menino há cerca de 8 anos.

A diminuição do atendimento ao parto domiciliar pelas parteiras se encontra relacionada a um conjunto de fatores, dentre eles, às políticas públicas de saúde implementadas no município que, com a implantação dos PSF’s e a ampliação do serviço de atendimento médico na localidade, as parteiras passaram a ser orientadas a conduzir as parturientes ao hospital e as mulheres estimuladas a não optarem pelo parto domiciliar, de modo a reduzir significativamente o quantitativo de partos assistidos por parteiras em domicilio.

As histórias de iniciação na prática do ofício das parteiras dessa localidade são um tanto parecidas. Boa parte delas são netas ou filhas de parteiras e aprenderam a partejar acompanhando suas mães de avós na assistência ao parto. Outras atenderam o primeiro parto domiciliar em situações de “emergência” e a partir de então passaram a serem referenciadas na comunidade como mulheres que pegam menino. Há também aquelas que mesmo sem exercer a função de parteira, vivenciaram pela primeira vez o ofício do partejar no ambiente hospitalar e nesse contexto se tornaram parteiras, atendendo partos tanto hospitalares quanto domiciliares, casos em que a ciência da tradição dialoga com a convivência biomédica. Em suma, na maioria dos casos é recorrente a transmissão familiar, o saber repassado através da oralidade e a experiência do partejar adquirida na pedagogia da vida.

Um dos exemplos que ilustra a iniciação dessas mulheres que pegam menino é a história de vida de Dona Alice e sua trajetória no ofício do partejar. Neta da parteira Francisca Rodrigues, sua avó materna – “eu mesmo fui pegada por parteira, a parteira da minha mãe foi ela”-, foi aos 20 anos de idade que D. Alice se iniciou no oficio do partejar – “eu tive um sonho de fazer um parto. Foi quando eu fiquei mais uma comadre minha, enquanto ia chamar a parteira, aí veio o menino. Aí eu peguei e disse: ‘e agora? Como é que eu faço?’. Aí a comadre disse: ‘é assim’”, orientando-a com os procedimentos após o nascimento do bebê. O primeiro parto que atendeu foi no ano de 1979, e desde então, “começaram a me procurar, o povo começou a gostar…”.  Casada, mãe de três filhos, dois biológicos e um adotivo, o parto de um de seus filhos foi assistido em domicílio pela enfermeira-parteira Elza, e após ter vivenciado sua primeira experiência de “pegar menino”, quando atendeu o parto de sua comadre, foi buscar orientações com Elza. A partir de 1988, D. Alice e sua família passam a residir no município de Trindade-PE, “vim morar no Saco Verde, era tudo conhecido. (…) Maria Pureza mesmo, quando chegava, eu já tinha feito o parto. Ela chegava e dizia: eu sabia que comadre Alice num tava só. Olhava e tava tudo ok. Daí por diante comecei, as pessoas aqui da região, do sítio Saco Verde, da Inveja, os partos tudinho era em domicílio. 3/4 dos menino aqui da região sou eu que faço”. A partir de 1994, D. Alice começou a freqüentar vários cursos de capacitações para parteiras, dentre outros na área da saúde, e no ano de 1996, ela se tornou Agente Comunitária de Saúde (ACS) do povoado do Saco Verde, zona rural onde atua e reside (entrevista realizada com D. Alice em 22/02/2008).

O Dom de pegar menino é também recorrente na narrativa das parteiras. Várias delas associam o ofício do partejar a um Dom Divino, uma ciência, um saber que a elas foi dado por Deus para auxiliar as mulheres e salvar vidas – “eu só tenho a ciência de pegar menino. A pessoa quando nasce com uma coisa, ela aprende, né! Ninguém me deu lição nenhuma. É da minha cabeça. É um dom que Deus me deu. É porque eu tenho. Deus me meu esse Dom. O que eu fiz, Deus me dá recompensa, me dando  recompensa do reino do céu tá bom. Depende da sorte que Deus dá pra pessoa. Tem muitos que pode querer e num pode, porque a sorte não dá. É desse jeito. Porque tudo que Deus consente a gente faz. E tem deles que tem vontade de fazer e num faz. Gostava porque era meu ramo. Era a minha profissão. Uma pessoa vir atrás de mim, eu sabendo que sei, não ia negar, eu não negava. E tinha deles que vinha aqui atrás de mim, eu mandava ir pra maternidade, porque eu sabia que não dava pra mim. Quando ia pra maternidade era cesárea. Sei que quando eu mandava, eu já sabia o que era. Chegava lá [na maternidade] era uma cesárea. Sabia sem examinar, só olhar, sentia que não dava pra mim. A mulher que pega o filho e corta o umbigo dele, ela é a mãe, a legítima mãe primeira. É a mãe que pode garantir…” (D. Expedita Carlota, 22/08/2008).

É relevante mencionar que em algumas entrevistas na pesquisa no município Trindade foram citadas três categorias êmicas para as parteiras. Dona Francisca, parteira e Agente Comunitária de Saúde (ACS), explica que existe a parteira da hora, a parteira fina e a parteira da resistência. A parteira da hora é aquela que só atende o parto em situações de emergência, mas se houver a possibilidade de locomover a parturiente até o hospital ou mesmo passar a responsabilidade da assistência ao parto para outra parteira mais experiente, ela não atende ao parto. A parteira fina é considerada por seus pares uma parteira de ciência. Possui uma vasta experiência no ofício do partejar, não teme de imediato os desafios que um parto possa apresentar, por ser conhecedora da natureza e do corpo da mulher. Sinônimo de parteira mestra na prática do ofício, por vezes é entendido por outras parteiras como um Dom recebido do poder divino.  A parteira da resistência é aquela que está disposta a aprender. Mesmo estando sujeita a passar por situações difíceis, ela não desiste de imediato da assistência ao parto. Procura aprimorar seus conhecimentos sobre parturição e sua prática no ofício do partejar por meio da experiência e dos saberes transmitidos oralmente pelas parteiras finas.

A prática do ofício das parteiras tradicionais entrevistadas consiste, em sua maioria, no acompanhamento de três etapas: gestação, parto e pós-parto. Uma das práticas tradicionais identificadas com maior recorrência entre as parteiras dessa localidade é o uso do chá de gergelim, oferecido a parturiente para aumentar as dores das contrações e acelerar o trabalho de parto – “peço gergelim, mando pisar e vou fazer o chá. Aí eu recebo aquele gergelim, faço um copo de chá, boto um pouco de azeite dentro, um pouquinho de açúcar e dou a ela pra beber. Aí a dor aumenta” (Dona Raimunda Parteira). Elas também costumam preparar chás de pimenta-do-reino e de cravo, ambos servem para aumentar as dores das contrações. Há uma  diversidade de práticas da tradição usadas pelas parteiras na gestação, no parto e pós-parto como, por exemplo, chá de cebola branca e de alfazema usados durante  gestação para auxiliar no desenvolvimento do bebê; banho de água morna durante o trabalho de parto; chá de imbiriba para aliviar as dores no pós-parto; a mistura de arruda com fumo, também usada em cima da barriga da mulher, caso ela sinta dores no pós-parto; banho de mistura de ervas (manjericão, mastruz e macela) para evitar inflamações no pós-parto;  azeite de podóia ou de mamona, ambos usados no coto umbilical do bebê para auxiliar na cicatrização; “caldo da caridade”, um tanto mencionado pelas parteiras da localidade – “esse caldo é preparado só com um pouco de pimenta do reino, sal e alho. Depois põe um pouco de farinha de mandioca e oferece a parturiente” – que serve para dar força à parturiente e ajudar o bebê nascer.

Além da oração de Santa Margarida, rezada para auxiliar a expulsão da placenta, também identificamos outras rezas e orações que fazem parte da prática do ofício de algumas parteiras, a exemplo do “Rosário Apressado”, “Oração de Santa Rita”, e “Oração de Santo Enore”. Algumas parteiras mencionaram a existência das referidas orações e preferiram se resguardar e não revelar a reza para esse inventário. Porém, a parteira Dona Albertina nos ensina como ela reza o rosário apressado no evento do parto – “um terço tem 53 Ave Maria. Aqui são três. Aí forma 153 ave Maria e 153 Santa Maria, 15 Pai Nosso e 15 Glória ao Pai. Quando vai rezar, primeiro a gente reza o Creio em Deus Pai, aí começa daqui: ‘valei-me minha virgem da conceição. É chegada a ocasião [repete três vezes]’. Quando chega no Pai Nosso, diz: ‘oh Virgem da Conceição, senhora esclarecida, rainha dos céus, reino da vida e tudo será salvo. Senhora dai-me a vossa mão, que a minha alma está caída e meu corpo entristecido. Dai-me força Nossa Senhora, que chamasse por vós 153 vezes… Pai nosso, valei minha virgem da Conceição, é chegada à ocasião [três vezes]. Em nome do pai’. Aí começa: ‘oh Virgem da Conceição, senhora esclarecida, rainha do céu, reino da vida e da consolação. Senhora dai-me a vossa mão que a minha alma está caída e meu corpo entristecido. Dai-me força senhora do céu que por vós chamasse pra ser valido. Valei-me minha Virgem da Conceição é chegada a ocasião. Dai-me um toque senhor. Se eu enfrentarei este parto, se eu enfrentar vós me diga, e se eu num enfrentar…’. Aí a gente sente, eu vou fazer. E também se errar no valei minha Virgem da Conceição, num se meta, não! Duas vezes, a gente faz o parto, mas é meio perigoso. Agora nas três, se errar, num vá não, que aí o bicho pega. É problema de tirar pra médico. Ou acontecer um caso da criança morrer, ou causa de perigo!”.

Na localidade de Trindade, boa parte das parteiras participou dos cursos de capacitação para parteiras tradicionais e muitas afirmam que passaram a adotar algumas mudanças em suas práticas depois das capacitações como, por exemplo, orientar sobre a importância das gestantes fazerem o pré-natal, usar luvas na assistência ao parto, fazer o exame de toque para verificar a dilatação do colo uterino, estimular a amamentação nas primeiras horas de vida do bebê e só dar banho no dia seguinte após o nascimento, são algumas das mudanças identificadas. “A gente passou a assistir as capacitações, você aprende coisas novas! Cada vez vai trocando experiência com as outras, vai ensinando o que você sabe, vai aprendendo o saber das outras, vai trocando experiência… A gente vive uma vida que as coisas vai mudando, vai modificando, e você vai pegando a notificação das coisas”.