Saberes e Práticas das Parteiras Tradicionais de Pernambuco
Instituto Nômades

Palmares

A cidade de Palmares, localizada na mata sul do estado de Pernambuco, a 125 km da capital, tem 55.790 habitantes. Limita-se ao norte com Bonito, ao sul com Xexéu, a leste com Joaquim Nabuco e Água Preta e a oeste com Catende. Região de cultura de cana de açúcar, é composta por diversos engenhos, onde a maioria das parteiras residem. Não há um cadastro de parteiras na localidade de Palmares, mas percebe-se que algumas parteiras são figuras de liderança, mantendo contato com outras parteiras e demonstrando um desejo de fundar uma associação de parteiras.


Projeto Saberes e Práticas das Parteiras em Palmares

Grande parte das parteiras que atua na região de Palmares está bastante isolada, residindo e atuando em engenhos distantes e de difícil acesso (em torno de 60% das parteiras entrevistadas moram em engenhos de difícil acesso). Alguns dos engenhos nos quais as parteiras atuam ficam quase que totalmente inacessíveis durante o período de chuvas, só podendo ser acessados de trator ou após uma longa caminhada por estradas nas quais a lama chega, em vários trechos, perto do joelho. São mulheres de baixa renda, que pariram muitos filhos (cerca de 84% das parteiras entrevistadas tiveram 5 ou mais filhos, a maioria assistidas por outras parteiras), que tiram o seu sustento de outras ocupações (principalmente de atividades rurais e da agricultura de subsistência) e que costumam atender a mulheres que residem em suas comunidades e nos arredores, comungando da mesma realidade socioeconômica que elas. Costumam encarar o ofício de parteira como uma missão, um dom que lhes foi dado por Deus e que têm a obrigação de usar a serviço da comunidade: “Eu já tive muita vontade de desistir, mas eu tenho dó de estar dormindo na minha casa, chegar na minha porta me chamando, e aquela criatura sofrendo tanto, e ela estar lá precisando de ajuda, e eu não ir. Não faço isso, porque tem a ajuda de Jesus e a nossa ajuda que dá aquela força, coragem” (Maria José de Oliveira – D. Geruza – , Engenho Jaqueira).

Em torno de 85% das parteiras entrevistadas já tinha ao menos um filho antes de iniciar sua prática, e o primeiro parto atendido se deu em uma “emergência”, ou seja, em uma situação na qual o nascimento estava iminente e não dava tempo de chamar uma parteira ou remover a parturiente para outro local. Grande parte relata haver utilizado procedimentos no primeiro parto atendido dos quais lembravam a partir de partos vivenciados por elas mesmas (lembravam os procedimentos utilizados pelas parteiras que as atenderam), ou por terem ouvido conversas de outras mulheres sobre que procedimentos adotar, em especial nos casos das parteiras que têm outras parteiras na família (em torno de 38% das parteiras entrevistadas disseram ter mãe e/ou avó ou sogra parteira).

Percebemos também que, apesar de muitas das parteiras entrevistadas terem afirmado que houve uma redução significativa na quantidade de partos que assistem, algumas parteiras da região ainda são bastante atuantes, seja por residirem em áreas de mais difícil acesso, seja pela procura por seus serviços pela comunidade, como é o caso de Edite Maria da Silva (D. Edite), do Engenho Couceiro, que ganhou fama depois de ter aparecido em um programa de televisão de grande audiência nacional e passou a ser procurada inclusive por mulheres residentes em outros engenhos / comunidades. Os motivos por trás da diminuição da procura pelo parto domiciliar na região são variados e complexos, como é o caso das outras localidades incluídas neste inventário. As próprias parteiras apontam alguns desses motivos: utilização mais ampla de métodos anticoncepcionais com conseqüente diminuição da taxa de fecundidade das mulheres da região; ampliação da cobertura do SUS na região, que vem, cada vez mais, chegando em regiões onde antes não chegava, com conseqüente desestímulo ao parto domiciliar; maior confiança das mulheres nos médicos e hospitais do que nas parteiras. Uma das parteiras expõe sua insatisfação em relação ao desestímulo dos profissionais dos Postos de Saúde da Família (PSF) da região à prática da parteira: “Esse negócio de PSF e as enfermeiras que trabalham no posto, elas tão tirando o impacto de incentivar as parturientes a ter menino com parteira tradicional. (…) Elas não aceita que uma parteira tenha condição de fazer um parto.”