Saberes e Práticas das Parteiras Tradicionais de Pernambuco
Instituto Nômades

Jaboatao

Localizado na região metropolitana do Recife, o município de Jaboatão dos Guararapes encontra-se a cerca de 18 quilômetros de distância do centro da cidade do Recife, capital de Pernambuco. Suas fronteiras territoriais apresentam a seguinte configuração: ao leste encontra-se o Oceano Atlântico; a oeste o município de Moreno; ao sul o município do Cabo de Santo Agostinho; e ao norte os municípios de Recife e São Lourenço da Mata. Sua área territorial tem uma abrangência de 256 Km2  e boa parte do seu território encontra-se densamente povoado.

De acordo com contagem populacional realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2007 o município apresentava uma população estimada de 665.387 habitantes, número que consolidava sua posição como o segundo maior município de Pernambuco em número de habitantes, sendo ultrapassado apenas pela capital do estado.

Embaralham-se em seu território áreas predominantemente urbanas, com todos os seus problemas característicos, e áreas predominantemente rurais, formadas por engenhos. A Associação das Parteiras Tradicionais e Hospitalares de Jaboatão dos Guararapes, fundada em xxx, congrega parteiras urbanas e rurais, além de parteiras de municípios vizinhos, como Recife e Camaragibe.


Projeto Saberes e Práticas das Parteiras em Jaboatão dos Guararapes

A Associação das Parteiras Tradicionais e Hospitalares de Jaboatão dos Guararapes nasceu após um curso de capacitação para parteiras tradicionais promovido pela Secretaria Estadual de Saúde de Pernambuco em 1994. Nesse curso, formou-se um grupo que tinha a idéia de fundar uma associação, objetivando dar mais qualidade de trabalho e visibilidade ao trabalho da parteira na região. Nesse mesmo ano, funda-se a Associação das Parteiras Tradicionais e Hospitalares de Jaboatão dos Guararapes, que passa a ser presidida pela parteira Maria dos Prazeres de Souza, ela mesma uma simbiose entre a prática tradicional e as técnicas hospitalares. A Associação chegou a ter sede própria e reuniões mensais, mas hoje se encontra praticamente inativa e sem sede.

Durante a fase de coleta de dados do inventário, o processo de localização e contato com as parteiras em Jaboatão dos Guararapes foi árduo, uma vez que havia duas listas distintas de parteiras: uma da ONG Grupo Curumim, outra da Secretaria Estadual de Saúde de Pernambuco. Do cruzamento dessas listas, obtivemos um total de 73 parteiras. Esse montante ainda não incluía o cadastro da Associação das Parteiras Tradicionais e Hospitalares de Jaboatão dos Guararapes. Foi bastante difícil ter acesso a esse cadastro, uma vez que não havia na Associação um arquivo completo. Havia pelo menos duas listas, sendo que uma delas apresentava por vezes apenas o nome da parteira, sem dados adicionais como telefone e endereço. Confrontando as listas e inseridas todas as parteiras do cadastro da Associação, o número de parteiras da localidade se elevou para 146 mulheres.

As entrevistas começaram a partir desse levantamento. Foram contatadas as parteiras que tinham dados completos e as entrevistas começaram, sempre buscando levantar os dados das parteiras que não tinham endereço e telefone no cadastro. Durante o trabalho de campo, surgiram seis novas parteiras, citadas por outras ou pela comunidade da localidade, as quais foram entrevistadas, elevando o quantitativo de parteiras na localidade 152. Desse total, porém, identificamos 17 parteiras que já haviam falecido. O número total de parteiras da localidade fixou-se, então, em 135, sendo que destas 39 foram localizadas e entrevistadas.

Das 96 mulheres restantes no cadastro, identificamos 11 que não eram parteiras – eram doulas, filhas de parteira, tinham outras funções na Associação, ou tinham ajudado em algum parto pontual, mas não se consideravam parteiras. Restaram então 88 parteiras que não foram localizadas: ou estavam viajando, ou não tinham no cadastro endereço/telefone, ou o endereço fornecido era inexistente ou incorretos. Tal fato dificultou bastante o trabalho de campo, com idas infrutíferas e procuras por endereços inexistentes e/ou incorretos.

Nesta localidade há um número razoável de parteiras ainda atuantes na assistência a partos. Contudo, é notória a diminuição desses atendimentos. Isso se deve a motivos variados. Algumas apontam o surgimento dos postos de saúde da família (PSFs) como causa, já que eles recomendam que as parteiras encaminhem as grávidas aos serviços de saúde e hospitais, por considerar o parto domiciliar perigoso. Essa, segundo algumas parteiras, também foi uma recomendação comum em alguns dos cursos de capacitação para parteiras realizados pela Secretaria Estadual de Saúde de Pernambuco – o parto domiciliar passa a ser algo emergencial, e não uma escolha da mulher. Muitas parteiras também citam que a escolha das mulheres hoje em dia é pelo parto hospitalar, pela imagem de segurança que a maternidade representa para a sociedade urbana e contemporânea.

Dentro desse contexto, observa-se que as que ainda atendem em domicílio o fazem por: escolha da mulher, como no caso da parteira Maria dos Prazeres de Souza, presidente da Associação das Parteiras Tradicionais e Hospitalares de Jaboatão (isso porque cresceu nos últimos anos o número de mulheres informadas que buscam protagonizar seu próprio parto e procuram na figura da parteira a referência para um parto domiciliar seguro e afetuoso); confiança no trabalho da parteira – muitas mulheres se sentem mais seguras acompanhadas por uma pessoa de referência em sua comunidade, além de acharem o atendimento hospitalar frio e amedrontador; difícil acesso aos hospitais – esse é o caso principalmente das parteiras que exercem suas atividades em engenhos de difícil acesso da área rural de Jaboatão dos Guararapes, como nos casos das parteiras Tereza Maria Diniz (Queleu) e Djanira Gomes da Silva; falta de acesso a transporte – nas áreas urbanas e de periferia, às vezes é difícil conseguir um carro para levar a parturiente a um serviço de saúde, especialmente levando-se em consideração o poder aquisitivo das famílias (muitas vezes não há carro disponível dentro da comunidade, e mesmo que houvesse dinheiro para pagar, os taxistas frequentemente recusam-se a entrar na comunidade).

Entre as parteiras entrevistadas no campo de Jaboatão, uma grande parte possui experiência hospitalar, fato que diferencia e especifica este campo. Além disso, mesmo as parteiras sem experiência hospitalar apresentam algumas práticas hospitalares – muitas tiveram acesso a esses conhecimentos, seja nos próprios partos, seja acompanhando parentes amigas, seja porque atuam como Agentes Comunitárias de Saúde (ACSs).

A grande maioria das parteiras entrevistadas já participou de algum curso de capacitação para parteiras tradicionais, sendo uma das exceções o caso da parteira Maria Severina da Silva (Lica), cujo perfil é de parteira da família, que atendia apenas aos parentes e às pessoas mais próximas.

Da mesma forma, a maioria das parteiras entrevistadas possui ou possuiu algum vínculo com a Associação das Parteiras Tradicionais e Hospitalares de Jaboatão dos Guararapes, o que demonstra, talvez, a influência da Associação na prática das parteiras da região.

As mudanças na prática do partejar mais citadas são o uso de luvas e outros materiais de higiene e segurança; a abordagem mais humanizada no trato com a mulher e o bebê e o uso dos materiais recebidos no kit da parteira fornecido nos cursos de capacitação.

Mudou muito. Muitas coisas. Mudou porque o material que eu trabalhava, não tinha material. Segundo lugar, algumas coisas que eu fazia de um jeito, como por exemplo, o que eu usava, o que eu usava remédio, óleo de amêndoas no umbigo do menino, depois da experiência dos cursos eu deixei de usar. Não usava luva, a tesoura era qualquer uma, cordão não existia, usava qualquer um. Tudo que eu uso hoje, tudo veio na bolsa. (Tereza Maria Diniz – Queleu -, Engenho Pedra Lavada, Jaboatão dos Guararapes).

Por outro lado, há um número significativo de parteiras que afirma não haver mudado nada em sua prática:

Sempre eu faço do jeito que eu comecei. Eu não quero mudar não, porque eu tenho medo de mudar e me complicar em alguma coisa. (Severina Bezerra da Silva – Naninha -, Sucupira, Jaboatão dos Guararapes).