Saberes e Práticas das Parteiras Tradicionais de Pernambuco
Instituto Nômades

Ipojuca

Localizado na mesorregião metropolitana do Recife e na microrregião de Suape, a aproximadamente 50,2 km do Recife, capital do estado, o município de Ipojuca faz fronteira ao norte com o Cabo de Santo Agostinho, ao sul com Sirinhaém, a leste com o Oceano Atlântico e a oeste com o município de Escada. Constituído três distritos – Ipojuca-sede, Nossa Senhora do Ó e Camela – e 74 engenhos que compreende a zona rural da localidade, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), por ocasião da contagem populacional verificada no ano de 2007, Ipojuca contava com uma população de 66.384 habitantes.
A Associação de Parteiras de Ipojuca reúne-se através de uma associação de mulheres trabalhadoras rurais, com sede nas dependências do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Ipojuca. A responsável por organizar as parteiras e convidá-las para reuniões ou encontros externos não é parteira, mas uma liderança local integrante do sindicato. A associação não é legalmente formalizada e encontra-se praticamente desativada.


Projeto Saberes e Práticas das Parteiras em Ipojuca

A Associação de Parteiras de Ipojuca reúne-se através de uma associação de mulheres trabalhadoras rurais, com sede nas dependências do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Ipojuca. A responsável por organizar as parteiras e convidá-las para reuniões ou encontros externos não é parteira, mas uma liderança local integrante do sindicato. A associação não é legalmente formalizada e encontra-se praticamente desativada.

Das 28 parteiras que compunham os cadastros disponibilizados pela Associação, Grupo Curumim, secretarias estadual e municipal de saúde, algumas haviam falecido e outras passaram a residir em outros municípios. Portanto, foram localizadas e entrevistadas um total de 22 parteiras, que de acordo com os critérios estabelecidos para esse inventário, duas delas são parteiras hospitalares, e as outras vinte, parteiras da tradição.

Algumas parteiras residem na sede municipal da localidade, outras nos distritos que integram o município de Ipojuca. A grande maioria das parteiras da tradição, moram nos engenhos, na zona rural, lugares distantes e de difícil acesso cujas estradas, de barro, em época de chuva, ficam quase sem condições de serem utilizadas. A lama chega ao joelho e o acesso a alguns engenhos fica praticamente inviável. Esse é o cenário que integra a vida cotidiana dos moradores da zona rural no período chuvoso.

Era nesses lugares de difícil acesso que as parteiras exerciam a prática do ofício com maior freqüência. Atualmente, já não pegam tantos meninos como nos tempos de antigamente. Algumas delas, o parto assistido mais recentemente foi há cerca de dez anos. A diminuição da atuação das parteiras junto às mulheres da região é resultado de uma soma de fatores, dentre eles a cultura tecnocrata assimilada pelas mulheres que tem o hospital como o local “seguro” para o parto, a facilidade de acesso aos estabelecimentos de saúde e as políticas públicas de saúde implementadas no município. “Agora tem maternidade. Muitas mulheres novas agora não querem ter menino na mão da gente, porque têm medo ou têm vergonha, né? Querem a maternidade. Aí a vida da gente para pegar menino tá muito pouca. Só pega mais, vou lhe explicar, aquele engenho longe que tem água, lama, que é difícil o carro entrar porque só de avião. Essas parteiras que estão fazendo mais. Mas, essas parteiras que estão aqui em cima da comunidade, o carro do sindicato entra e leva. E a gente só faz quando está nascendo”.  Essa realidade também vem sendo vivenciada no cotidiano do hospital, devido ao fato de ter sido proibida a presença das parteiras no atendimento ao parto hospitalar. Exemplo ilustrativo é o de D. Sandra, parteira hospitalar, cujo parto mais recente que atendeu foi em 2007, “às vezes eu até sonho fazendo parto. Acordo cansada…”.

A prática do ofício das parteiras tradicionais entrevistadas consiste, em sua maioria, no acompanhamento de três etapas: gestação, parto e pós-parto. Uma das práticas tradicionais identificadas com maior recorrência entre as parteiras dessa localidade é o café quente com manteiga e/ou margarina, oferecido a parturiente para aumentar as dores das contrações e acelerar o trabalho de parto. Elas também costumam usar uma diversidade de chás como, por exemplo, o chá de pimenta-do-reino, manjericão e erva-cidreira. A utilização da oração de Santa Margarida é outra prática bastante recorrente: “Minha Santa Margarida, num tô prenha nem parida, tira essa carne podre de dentro da minha barriga”.

No que diz respeito aos cursos de capacitação para parteiras tradicionais, a maioria das entrevistadas participaram em algum momento e muitas afirmam que passaram a adotar algumas mudanças em suas práticas depois das capacitações como, por exemplo, orientar sobre a importância da gestante fazer o pré-natal, estimular a amamentação nas primeiras horas de vida do bebê e só dar banho no dia seguinte após o nascimento.