Saberes e Práticas das Parteiras Tradicionais de Pernambuco
Instituto Nômades

Igarassu

Localizado na região metropolitana do Recife, situado a cerca de 30 quilômetros de distância da capital de Pernambuco, o município de Igarassu apresenta uma área de 306 quilômetros quadrados, os quais integram suas áreas urbana e rural. Suas fronteiras territoriais apresentam a seguinte disposição: ao leste, encontra-se o Oceano Atlântico; a oeste, o município de Araçoiaba; ao sul, os municípios de Abreu e Lima e Cruz de Rebouças; e ao norte, o município de Itapissuma e o canal de Santa Cruz, braço d’água que separa a Ilha de Itamaracá do continente. Em contagem realizada no ano de 2007, a estimativa do total da população foi de 93.748 habitantes.


Projeto Saberes e Práticas das Parteiras em Igarassu

Em Igarassu não há associação de parteiras. A rede existente na localidade se formou porque as parteiras se conheceram por trabalharem em hospitais da região. É importante ressaltar que, além de Igarassu, a pesquisa também foi realizada nos municípios de Itapissuma e de Itamaracá, pois o campo nos mostrou que em oposição às fronteiras geográficas, as três cidades pareciam estar interligadas de um modo que formava um campo imaginário único. Como se as parteiras compartilhassem de um mesmo universo simbólico. Muitas moravam em Itamaracá ou Itapissuma, mas trabalhavam em Igarassu ou moravam em Igarassu e trabalhavam em Itamaracá ou Itapissuma. A maioria se conhece, trabalha ou já trabalhou junta.

Quinze parteiras foram entrevistadas. Todas trabalhavam ou haviam trabalhado em hospitais da região, aspecto que molda e diferencia o perfil das parteiras em Igarassu: parteiras com experiência hospitalar.

É notório que a quantidade de partos assistidos em domicílio por essas parteiras nos dias atuais é pequena. Tal fato se deve, principalmente, ao acesso mais fácil aos hospitais da região, mas também à soma de outros fatores, como o aumento de ligaduras entre mulheres e o declínio da taxa de natalidade. Porém, ainda existem mulheres residentes em Igarassu, Itapissuma ou Itamaracá que escolhem ter seus filhos em casa, assistidas por parteiras como podemos constatar nas falas. Quanto à atuação no hospital, os partos realizados por estas parteiras estão diminuindo devido à proibição do órgão de classe, que veta a assistência ao parto por auxiliares ou técnicos de enfermagem ou parteiras “leigas”. Portanto, muitas  entrevistadas trabalham  atualmente em outras áreas do serviço hospitalar.

Em relação ao perfil sócio-econômico das entrevistadas percebemos certo nivelamento. Todas residem em contexto urbano, tiveram acesso a estudos (a maioria possui o curso de auxiliar ou técnico de enfermagem).

A prática das parteiras entrevistadas divide-se equilibradamente entre a atenção a todo o período gravídico-puerperal e, devido à realidade vivenciada, a assistência apenas ao parto e ao pós-parto. Em seu ofício, são empregadas práticas tradicionais (chás, óleos e rezas) – seja para assegurar uma boa gestação e garantir um bom parto, seja para acelerar o trabalho de parto – associadas a práticas apreendidas no meio hospitalar. Muitas parteiras afirmam que o trabalho realizado em domicílio se diferencia porque nesse contexto elas têm autonomia para esperar o tempo do nascimento e liberdade para se valerem do saber popular. Para elas, o diferencial da parteira, em contraponto ao médico, está em saber admirar a beleza do parto, ter paciência, ter amor, passar confiança e estar disposta a atender uma mulher quando ela mais precisa: “Ser parteira é ajudar o próximo, principalmente quando ele mais precisa. É o amor que você tem, o carinho que você tem e… Pra mim ser parteira é importante porque você está trazendo vidas para o mundo”.