Saberes e Práticas das Parteiras Tradicionais de Pernambuco
Instituto Nômades

Caruaru

Localizado na mesorregião do agreste de Pernambuco e na microrregião do Vale do Ipojuca, a aproximadamente 130 quilômetros do Recife, capital do estado, o município de Caruaru faz fronteira ao norte com os municípios de Toritama, Vertentes, Frei Miguelinho e Taquaritinga do Norte, a leste Bezerros e Riacho das Almas, ao sul com Altinho e Agrestina e a oeste com Brejo da Madre de Deus e São Caetano. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), por ocasião da contagem populacional verificada no ano de 2007, Caruaru contava com uma população de 289.086 habitantes.

Por sediar a Associação das Parteiras de Caruaru Agreste, o município foi selecionado para compor o Inventário dos Saberes e Práticas das Parteiras Tradicionais de Pernambuco. No caso desta localidade, as entrevistas foram realizas com parteiras residentes em Caruaru e em municípios vizinhos (Agrestina, Belo Jardim, Brejo da Madre de Deus, Riacho das Almas e São Caetano), uma vez que a Associação congrega parteiras de todo o agreste do estado. Em Caruaru, boa parte das parteiras reside na sede do município, mas também estão nos povoados e em sítios mais distantes, especialmente nos municípios vizinhos. Sobre as condições socioeconômicas, verifica-se que na região há oferta de trabalho e as parteiras trabalham ou são aposentadas. As áreas de atuação são ligadas à saúde e à agricultura, majoritariamente. Devido ao contexto econômico atual, encontramos algumas parteiras que estão envolvidas com o ciclo de produção da sulanca.


Projeto Saberes e Práticas das Parteiras em Caruaru

De acordo com dados das entrevistas para esse inventário, a Associação das Parteiras de Caruaru-Agreste foi fundada no início da década de 1990 a partir da iniciativa da ONG CAIS do Parto, cujos integrantes foram ao município de Caruaru e circunvizinhança em busca de parteiras, reunindo-as e auxiliando-as na formação de uma associação para se organizarem enquanto categoria, procurar articulação com os gestores públicos e o reconhecimento da profissão.

No início da execução do inventário, a Associação de Parteiras foi contatada e uma cópia do projeto de pesquisa foi solicitada e fornecida. Enquanto o projeto era analisado, as entrevistas foram sendo realizadas com parteiras da região a partir de dados constantes nos cadastros da Secretaria Estadual de Saúde, Secretaria Municipal de Saúde de Caruaru e do Grupo Curumim (porém todos os 15 nomes desse último cadastro eram de parteiras hospitalares). Após algumas conversas com a presidente da associação, nos foram passados nomes e contatos de algumas parteiras associadas.

Após o cruzamento dos dados, foi elaborada uma listagem inicial com um total de 38 parteiras. Destas, 01 havia falecido, 05 não foram localizadas (endereços errados, mudança de município), 02 estão nos cadastros, mas não são parteiras, e 01 estava se recuperando de uma cirurgia e não pode participar. Ao longo da pesquisa, outras 15 parteiras, indicadas por entrevistadas, foram incorporadas à lista. Destas indicadas posteriormente, 03 não foram entrevistadas, porque, apesar da indicação, não foi possível localizá-las. Então, partimos de um quantitativo final de 53 parteiras, das quais 41 foram localizadas e entrevistadas. De acordo com os critérios estabelecidos para esse inventário, 8 delas são consideradas parteiras hospitalares e 33 parteiras da tradição.

No caso desta localidade, as entrevistas foram realizas com parteiras residentes em Caruaru e em municípios vizinhos (Agrestina, Belo Jardim, Brejo da Madre de Deus, Riacho das Almas e São Caetano), uma vez que a Associação congrega parteiras de todo o agreste do estado de Pernambuco. Em Caruaru, boa parte das parteiras reside na sede do município, mas também estão nos povoados e em sítios mais distantes, especialmente nos municípios vizinhos. Sobre as condições socioeconômicas, verifica-se que na região há oferta de trabalho e as parteiras trabalham ou são aposentadas. As áreas de atuação são ligadas à saúde e à agricultura, majoritariamente. Devido ao contexto econômico atual, encontramos algumas parteiras que estão envolvidas com o ciclo de produção da sulanca.

A prática do ofício das parteiras tradicionais entrevistadas consiste no acompanhamento do ciclo gravídico-puerperal, apresentando variações. Algumas parteiras não acompanham a gestação, apenas o parto e o pós-parto. Há casos em que apenas assistem o parto em si, ficando a responsabilidade pelos cuidados do pós-parto com os familiares da parturiente. A idade de iniciação das mulheres no partejar varia da adolescência à maturidade. Este momento é geralmente marcado pelo primeiro parto, cujos relatos são de situações emergenciais, acidentais ou em que é levada a assumir a tarefa de uma parteira, em geral mais velha, como nos casos em que é chamada para ficar com uma parturiente e a criança nasce enquanto o marido da parturiente vai em busca de uma parteira; em que atende a um chamado no lugar da mãe ou avó; ou em que corta o cordão umbilical do bebê por não haver uma especialista na ocasião do nascimento.

Algumas práticas tradicionais são identificadas com maior recorrência entre as parteiras dessa localidade: o uso de massagens na barriga pra “ajeitar o bebê”; utilização de rezas para facilitar a expulsão da placenta e o consumo de alguns alimentos como o café com manteiga e chás, especialmente de pimenta do reino, utilizados para “aumentar as dores” e ajudar no parto. As práticas (gestação, parto e pós-parto) vêm sendo transformadas a partir, principalmente, do contato com o modelo biomédico de atenção à saúde, a exemplo de mudanças na escolha do local de parto e nas orientações acerca das restrições alimentares durante a gestação e no pós-parto.

A maioria das entrevistadas participou dos cursos de capacitação para parteiras tradicionais. Verificou-se que desde a década de 1970 foram oferecidos treinamentos para estas mulheres, como atestam os certificados, mas na década de 1990 estes cursos passaram a ser oferecidos por organizações não-governamentais em parceria com os governos. As falas demonstram que além de um espaço para aquisição de conhecimentos técnicos e troca de experiências, os cursos são para as parteiras um momento de socialização e de lazer. Os discursos apontam para algumas mudanças estimuladas pelo conteúdo dos cursos, tais como utilização de luvas e incentivo ao acompanhamento pré-natal em postos de saúde.

Para grande parte das entrevistadas a iniciação no ofício se deu pelo acaso, destino divino, ou necessidade, aprendendo com a experiência e com a troca de conhecimento com mulheres mais velhas, parteiras mais experientes. Observa-se que muitas parteiras enveredaram para o trabalho em hospitais, seja na função de auxiliar de enfermagem ou como parteiras hospitalares, e, mesmo aposentadas, continuam atendendo partos domiciliares e exercendo tarefas ligadas à enfermagem (aplicar injeção, fazer curativos, etc). Algumas são bem atuantes na comunidade, atendendo partos com freqüência, e são referências de saúde. Outras, mesmo sem estar “pegando menino” há algum tempo (algumas afirmam que estão sem partejar há 5 ou até 10 anos), exercem liderança na comunidade por meio de outras atividades: levando pessoas ao hospital, auxiliando as pessoas a tirar documentos, etc. Verifica-se também, uma transformação na forma de atuação da parteira, que passa a fazer o elo entre as mulheres e o serviço de saúde, muitas vezes acompanhando as parturientes até a maternidade.