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Saberes e Práticas das Parteiras Tradicionais de Pernambuco
Instituto Nômades

Parteiras

Nesta sessão podem ser encontradas algumas reflexões sobre a parteira tradicional na contemporaneidade, seus contextos de vida e suas relações com a comunidade e com a sociedade mais ampla suscitadas pelo inventário. Também há informações sobre as vidas, saberes e práticas de algumas das parteiras entrevistadas durante a pesquisa, selecionadas por haverem sido bastante referenciadas em suas comunidades e também pelo que verificamos em campo sobre sua atuação e conhecimento diferenciados.


Na prática do fazer antropológico aprendi a pedir licença para adentrar no universo e falar sobre a ciência da tradição. Peço licença às Marias, Rosas, Joanas, Joaquinas, Sebastianas, Conceições, Franciscas, Raimundas, Antônias, Expeditas, Alices, Albertinas, Severinas… De muitos bebês, “sou mãe de pegação”, “mãe de umbigo”, “eu sou assistente”, “corto umbigo”, “pego menino”, “lavo menino”; mulheres que na lida da vida são parteiras da tradição.

Morando em lugares de difícil acesso, onde, em épocas de chuva, a lama chega ao “meio da canela”, caminhando longas distâncias, léguas e léguas, possuindo o Dom da dádiva, a fé do “mais do que Deus, ninguém”, muitas dessas mulheres aprenderam o ofício do partejar na “pedagogia da vida”! Bisnetas, netas ou filhas de parteiras, algumas se iniciaram no ofício acompanhando suas mães e avós, ou mesmo às escondidas, ouvindo os “segredos do parto”. Outras ainda, “foi lá na beira do rio minha filha! Aí eu peguei sozinha”, e tem também aquelas que em sonho receberam o chamado, “eu pegando o nenê, por que eu só sonho isso? Agora, aquele sonho foi como uma revelação”. E como tudo tem seu tempo, chegou o dia de alguém bater em suas portas: “Dona fulana! Minha mulher tá apertada pra ter menino…”. Elas a lembrar dos ensinamentos aprendidos e da vivência de seus próprios partos.

De sol a sol na lida cotidiana, cuidando da roça que alimenta a família, atendem ao chamado da mulher que precisa. A desafiar a fome quando na casa em que chegam não se tem o que comer, saem em busca do alimento. Com fé em Deus e em Nossa Senhora, se concentram na reza que aprenderam, respeitam o tempo da natureza. Mães, mãezinhas, madrinhas, comadres, com mãos que prestam um favor a quem precisa – gratidão que não tem preço, “eu fazendo o bem aqui na Terra, a recompensa Deus é quem vai me dar”.

Mulheres fortes, mães de tantos filhos, biológicos, adotivos e “de umbigo”, a passar dois ou três dias longe de casa – isso nos tempos de antigamente -, partejando, partejando, partejando, “quando chego, faço o exame de toque, boto ela pra caminhar, vou mornar água pra banhar”. A preparar chá de gergelim ou de pimenta do reino para aumentar as contrações, rezam a oração e a colocam no pescoço das mulheres, “quando o menino nasce tenho que tirar, se não é que aumenta a dor”.

Conhecedoras da natureza, preparam uma diversidade de “remédios do mato” – feitura de banhos, chás, lambedores e garrafadas à base de ervas, cascas, plantas e raízes com propriedades medicinais -, atendem à comunidade quando precisa. Rezam crianças e adultos de quebrante, mau-olhado, espinhela caída, com um ramo de mato verde ou mesmo com as próprias mãos. Mãos de parteiras, rezadeiras, benzedeiras, curandeiras que acalantam a ciência dos saberes da tradição.

Sumaia Vieira ( Co-autoras: as parteiras tradicionais que participaram deste inventário)